domingo, 14 de agosto de 2011

Poética


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
                protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
                                                o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas


Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

                                                                            
                                                      (Manuel Bandeira, Libertinagem- 1930)




Assim seja!

sábado, 13 de agosto de 2011

Problemática dualista

Há uma igreja a cada esquina
                                                            Há uma mulher a cada esquina
                              
                      Com todas as opções possíveis no mundo
                                  sacro e carnal
                    disputam sempre a mesma freguesia.



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cantiga de Enganar

O mundo não vale o mundo, 
                                           meu bem.
Eu plantei um pé-de-sono,
brotaram vinte roseiras.
Se me cortei nelas todas 
e se todas se tingiram
de um vago sangue jorrado
ao capricho dos espinhos,
não foi culpa de ninguém.
O mundo,
                 meu bem,
                                   não vale
a pena e a face serena
vale a face torturada.
Há muito aprendi a rir, 
de quê? de mim? ou de nada?

(...)
                                          (Carlos Drummond de Andrade)


Sem mais!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Dê-lhe tempo, corpo; acalma-te, alma; esta pessoa que vos sente, olhem bem, já não sabe o que é;
o que já foi e o que pôde ser.
O mundo grita na surdina, já não pode tanto ouvir; não ouve nem a si mesma.
Anda disfarçadamente maltrapilha, procurando onde deixou a sua coberta que carinhosamente chamou de 'dignidade'.
Pede esmolas com os olhos, reza para conseguir sorrisos,mesmo que já não saiba o que fazer com estes.
Come com o coração, por dentro, tudo o que rumina, tudo o que lhe parece azedo ou amargo.
O amargo que corre nos capilares, atinge os músculos e faz-lhe esticar-se, como um corpo estranho que é seu corpo.
Sorri por não saber o que fazer, oferece-o com o medo de que lhe exijam muito mais e além.
Quando sente-se sinceramente e profundamente mal, não pode repelir-se, já não se desprende de seu próprio mal.
Esta pessoa que vos sente fala da vida, imagina futuros, mas onde está ela nisso tudo?
O espelho não reflete mais quem ela conhece por si mesma. É alguém que a olha fixamente para depois desviar e desistir de se procurar ao menos externamente.
Vomita para dentro, tudo o que queria vomitar e oferecer ao externo, deixando-lhe dissipar no ar.
O corpo estranho treme, engana-se com o frio. Começa a suar, 'é o cansaço, essa possibilidade de esquentar'.
Suas mãos espalmam-se de modo sutilmente rude. No fundo ela só queria se acabar um pouco. Por fora tudo grita 'desista'.
Os dentes rangem, os olhos perdem-se. Busca duramente sentido no que chama de rotina.
Equilibra-se em seus próprios medos, cortantes ou simplesmente contestadores. Teme suas proprias contestações.
Teme tudo o que promete aos outros, pois já não pode cumprir as promessas feitas a si mesma.
O mundo, vezes gira depressa, vezes se estagna no ar. A cabeça roda, já não tem mais onde se apoiar...
Tudo cai...


Ela acorda, boceja, 
...
...
...
O primeiro passo é sempre o que dá mais medo,
mesmo que seja o de todos os dias.



sexta-feira, 29 de julho de 2011

(...) Yo sólo puedo luchar contra la fuerza de los hombres (...)

Começar o dia com...

(...)
Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nacár soleado.
Hasta te creo dueña del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.
Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.

(Pablo Neruda, Veinte Poemas de amor y una canción desesperada)


, e um café bem forte...

o resto é cotidiano,
mas também não deixa de ser encantador aos meus olhos.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Corro.
O mundo treme aos meus olhos que logo embaçam,
Já não faz mal, não vejo meu caminho, mas tudo o que já presenciei. Estou em dois lugares e quebro minhas próprias leis.
Teus velhos olhos, cansados, ainda me olham, me enganam e me prometem paz.
A paz que busquei me enganou; eu me enganei. Sabia no fundo que tudo é o contrário do que se quer!
Acelero.
Já não corro por correr, sinto que vou fugir.
Uma lágrima se mistura ao suor, ignoro-a, é mais uma...
Minhas pernas disparam, quase se apartam de mim, meus braços já não sabem a quem estão a obedecer.
Não sinto. Ainda estou dentro de qualquer lugar que não seja o que vejo.
Teus olhos sorriem, me abraçam. Se apartam...
O tempo que volta já morreu, não existe mais além de dentro de mim.
Parece vivo, tocável, mas inalcançável.
Seus olhos se entristecem, fecham-se.
A lágrima do que já foi lateja. Arde em meus olhos secos...
Me vejo e já não sei o que é, do que se trata.
Tudo se mistura aos compromissos. Seus olhos se dissolvem no meu olhar, que volta ao tempo real.
Suspiro e diminuo os passos. Meu coração parece que explode por dentro. Naturalmente.
Sinto o frio agora se envolver com meu suor. O mundo é dois e um. Eu sou uma e tento quebrar-me em várias para percebe-los.
Quase sempre é bom retomar sem precisar voltar...
Quase sempre!

sábado, 2 de julho de 2011

Ahh, férias... não sabia que ia te querer tanto assim, mesmo com duas humildes semanas!...


Para começar bem esse período de ócio, trago um vídeo do Monty Python sobre Déjà vu. Eu pelo menos ri muito e ao mesmo tempo fiquei agoniada, ainda mais lembrando de quando isso acontece comigo...




Para quem não conhece nem Monty Python, recomendo, agora para aqueles tais momentos de férias em que se entedia facilmente, mas vale para qualquer momento... é um tipo de humor que infelizmente não encontro mais... 


... acho que já escrevi esse post antes...


(sem mais ''profundidades'' por hoje)