Era ela, pequena menina, cabelos curtos, tão finos que ainda dançavam fragilmente com o vento, de perninhas finas e quase quebráveis. Corria atrás do pequeno filhote que acabara de ganhar, explorava todos os cantos do quintal de cimento remendado. Outra...
No Ano Novo, vendo toda família reunida uma ultima vez, com um vestido branco feito a mão pela mãe. Cartazes de bons desejos, mesa farta, irmãos tocando e pai cantando, sono. Dormiu antes d'outro ano chegar. Novamente...
Decorando quatro versinhos antes de apresentar-se junto a outras crianças. Versos que falavam sobre Tiradentes. Usava seu vestido preferido... Ao mesmo tempo, o que mais penicava. Recitou com a voz trêmula. Depois seus pais a levaram a praça para brincar e tirar fotos. Mais... Muito mais vem à mente.
E piso em todos os lugares que já vivi. O passado não volta. Continuo caminhando no limite do que é presente e futuro. Todo olhar sempre é uma nova perspectiva a se revelar. Já não olho com os olhos que enxergavam há anos atrás. O que fica é a lembrança: um cheiro, um gosto, um gesto. Os rostos já mudaram, os abraços mudaram sua exigência de conforto. O amor se diferenciou. O coração e as pernas continuaram a tocar a vida do resto do corpo.
Que eu possa continuar vivendo com pequenas e saborosas colheradas. O final chega, inevitável e algumas vezes brutal. Mas quero olhá-lo e suspirar satisfeita da vida que vivi!
Não preciso correr, sinto e absorvo as pedras e flores do caminho.
sábado, 17 de dezembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
(Des)acostumar-se
Hoje nossa professora de Histórico Cultural nos presenteou com um lindo texto para encerrar a matéria!
EU SEI, MAS NÃO DEVIA
Eu sei que a gente se acostuma, mas não devia
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(Marina Colasanti)
Ela dedicou-nos o texto, desejou que nunca nos acostumemos com certas situações por comodismo ou pressão social...
Pois bem, dedico não o texto, mas toda a profundidade que ele carrega à uma boa parte de minha família e para todos aqueles que um dia sugeriram que eu desistisse, que 'deixasse quieto' ou esquecesse.
Desejo que entendam e respeitem o fato de eu não me acostumar com apartamentos, janelas fechadas e quintais cimentados. Que não me acostumo com mentiras (inclusive as minhas próprias), com arrogâncias e todos os tipos de palavras que machucam os que amo. Que não me acostumo com o passado que tive, e que perdoar nunca será esquecer. Que não me acostumo com quem não aceita ou simplesmente convive com minhas diferenças.
Que não me acostumo com corrupções, invejas e discriminações. Que não me acostumo com as bitucas de cigarro, copinhos de plástico e afins que jogam no meio da rua, diante de meus olhos. Que não me acostumo com exemplos e morais passadas, puras enganações. Que não me acostumo com certas ausências e muito menos com presenças forçadas. Que não me acostumo com as falsas amizades e falsos amores. Que não me acostumo com a brutalidade e capacidade dos meus próximos em magoar. Que deixo-os sobretudo livres para não se acostumarem comigo!!! Que eu mesma já não me acostumo com o que tenho de mim, pois a cada dia, sou-me outra, sempre reconstrução!
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Dia D
Só para enfatizar, hoje comemoramos os 109 anos do meu querido e eterno inspirador Carlos Drummond de Andrade.
Eternamente e merecidamente lembrado!!!
Leia mais aqui...
"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,Mas a poesia (inexplicável) da vida."
Eternamente e merecidamente lembrado!!!
Leia mais aqui...
"Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,Mas a poesia (inexplicável) da vida."
domingo, 23 de outubro de 2011
Uma música para o domingo
Para o dia não-mais-tão-calmo e de tonalidades belamente tristes, que precede os dias de correria, dedico-lhe uma música na qual sempre me lembro em teus semanais dias...
Original- Radiohead
sábado, 8 de outubro de 2011
Nosso mundo gira loucamente...
Queria com a voz mais doce adormecer-te em meus braços...
e a cada abraço fazer-te leve
Levar-te a voar comigo no céu mais denso e doce.
Com mãos suaves que te arrepiassem a voz.
Nos nossos dias em que tudo é possível,
quero contigo continuar sonhando.
Ter dessa companhia os sorrisos mais sinceros
Os olhos mais cativantes...
Que prendem-me quando estás e roubam-me quando deles lembro
Rosto, corpo e pessoa que me encantam,
que movem meus dedos a escreve-te essas linhas.
Ah, como os dias são suaves e ternos ao seu lado!
e a cada abraço fazer-te leve
Levar-te a voar comigo no céu mais denso e doce.
Com mãos suaves que te arrepiassem a voz.
Nos nossos dias em que tudo é possível,
quero contigo continuar sonhando.
Ter dessa companhia os sorrisos mais sinceros
Os olhos mais cativantes...
Que prendem-me quando estás e roubam-me quando deles lembro
Rosto, corpo e pessoa que me encantam,
que movem meus dedos a escreve-te essas linhas.
(The Weepies- World Spins Madly On)
Ah, como os dias são suaves e ternos ao seu lado!
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Que seja Doce!
Esperança, a lágrima contida, o sorriso esperado, o abraço que prepara e aquece o corpo...
Vã quando sonho, quando me cega e me transporta para minhas utopias.
Realidade que se materializa no viver, em cada passo que dou e que possibilita que eu presentifique as possibilidades futuras e me desprenda de tudo o que é passado...
Peço-me, não te abandones...
Mas também... não se vicie no que não é, esperando passivamente acontecer...
Então...
"Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo; repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”
Caio Fernando Abreu
Pois se deixo a minha janela aberta, é porque respiro a docilidade de agir, viver e nunca deixar de desejar!
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Percepções viajantes
A espuma d'água que cai no céu.
O homem que constrói e é destruído por sua própria criação. Capaz de virar um mundo de ponta cabeça.
Um horizonte belo, um ar calmo.
Encontraria isso em qualquer lugar, mas, ali não era qualquer lugar.
Perder-se no estranhamento acolhedor.
Ter a felicidade de não possuir ponto de partida nem de chegada.
Ver nos rostos uma mistura, um conforto de lar muito diferente do que já senti.
Rostos pintados de fé. Rezas e persistências que movem coletivamente pessoas estranhas entre si.
Nas ladeiras deixar rolar toda prisão gerada pela terra.
Sentir nas serras que cercam um pequeno mundo, um abrigo que liberta.
Entender que sorrisos ainda são bem-vindos e que conversas ainda podem ser longas.
Chegar num espaço leve onde a loucura é apenas um dos parâmetros alcançáveis da inatingível normalidade.
Anoitecer por dentro, deixar ir o que me leva, deixar para trás o que levo comigo.
Ver no céu uma estrela que equivale aos pontos luminosos que brotam no chão.
Viajar faz bem ao organismo e à história pessoal!
O homem que constrói e é destruído por sua própria criação. Capaz de virar um mundo de ponta cabeça.
Um horizonte belo, um ar calmo.
Encontraria isso em qualquer lugar, mas, ali não era qualquer lugar.
Perder-se no estranhamento acolhedor.
Ter a felicidade de não possuir ponto de partida nem de chegada.
Ver nos rostos uma mistura, um conforto de lar muito diferente do que já senti.
Rostos pintados de fé. Rezas e persistências que movem coletivamente pessoas estranhas entre si.
Nas ladeiras deixar rolar toda prisão gerada pela terra.
Sentir nas serras que cercam um pequeno mundo, um abrigo que liberta.
Entender que sorrisos ainda são bem-vindos e que conversas ainda podem ser longas.
Chegar num espaço leve onde a loucura é apenas um dos parâmetros alcançáveis da inatingível normalidade.
Anoitecer por dentro, deixar ir o que me leva, deixar para trás o que levo comigo.
Ver no céu uma estrela que equivale aos pontos luminosos que brotam no chão.
Viajar faz bem ao organismo e à história pessoal!
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